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Última actualización:
Xeral: 19-05-2013 19:58

Dioivo na rede

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As palavras de Kunta Kinte

Acordades-vos de Kunta Kinte? Raízes foi umha série emitida pola TV em 1979. Eu daquela tinha 7 anos e fum daqueles que puidemos ver a famosa escena de tortura a Kunta Kinta. Atado polos pulsos, o capataz perguntava-lhe:

- Como te llamas? -e el respondia-
- Kunta.
- No, tu nombre de esclavo es Toby!

E chas! Chas era o ruído que fazia o chicote nas costas do escravo Kunta, um rapaz de dezasete anos que, capturado em África, fora levado a América num barco negreiro  e sometido á escravatura. A sua escravatura começava com um cámbio de nome.

- Como te llamas?
- Kunta.
- No, Toby!

E chas! E assi repetidamente, num dos momentos mais dramáticos da história da televisiom.

Aquela série foi umha adaptaçom do best-seller Roots, de Alex Haley, um livro que se apressenta na ediçom que eu tenho como "O testemunho mais eloquente nunca escrito sobre a grandeza e a liberdade dos homes". E das mulheres, claro.

Quando Alex Haley era um meninho, a sua avoa Cynthia contava-lhe histórias sobre o passado da sua família até chegar a um devanceiro ao que chamavam "O africano".  Esta é umha história sobre a força da transmisiom oral, esse fio de palavras que, nunca escritas, atravessam o tempo de geraçom em geraçom.

A história daquel africano que lhe contara a sua avoa, e a esta lhe a sua avoa, era a história do tatara tatara tatara avó do pequeno Alex.

A avoa Cynthia falara-lhe ao seu neto sobre um rapaz de dezaseis anos que se chamava Kintey, e que, buscando madeira para fazer um ko, perto dum lugar chamado Kamby Bolongo, em África, foi capturado e levado a um barco de escravos que o levou até América,  onde lhe derom o nome de escravo Toby.

- Mamá, por que nom deixas de falar-lhe ao neno dessas cousas de escravos? Som umha vergonha, dizia-lhe á sua mai a mai do pequeno Alex.
- Se a ti nom che importan de onde ves, a mim si, respostava Cynhtia.

Álex medrou sem esquecer aquela história. Fixo-se escritor e jornalista, foi colaborador de Malcom X e entrevistou a Miles Davis e a Mohamed Ali, entre outras muitas cousas, e um dia decidiu investigar sobre o passado da sua própria  família.

Mas só tinha aquelas quatro palavras que chegaram desde África havia mais de 200 anos: ko, kambi bolongo, kintey. Com aquelas quatro palavras viajou até um lugar onde pensou que poderia atopar gente de todos os países da África: a se da ONU em Nova York. Ali, durante dez dias, á saída do trabalho, foi perguntando-lhe á dúcias de africanos se conheciam algum daqueles sons que el pronunciava com sotaque de Tenesse: ko, kambi bolongo, kintey. Alguns pensarom que estava louco.

Mas um dia alguém lhe deu o contacto dum lingüista especializado em idiomas africanos, o belga Jan Vansina. E foi falar com el.
Vansina, que escrevira o livro La tradition oral, estava mui interessado na transmisiom física da narraçom através das geraçons e escoitou-no com muita curiosidade. E dixo-lhe que aqueles sons eram quase seguro palavras da língua mandinga.

A palavra ko podia referir-se ao kora, un instrumento de corda. E kambi bolongo podia estar composto pola palavra bolongo, água que corre, e Kamby, Gámbia: Rio Gámbia.

Alex Haley viajou a Gámbia. Ali contou dúcias de vezes a sua história a quem a quixo escoitar... E aqui a história pom-se outra vez maravilhosa, como nos explica o próprio Haley: "Despois contarom-me algo que eu nunca teria imaginado que puidesse existir: havia homes mui velhos, chamados griots, que eram arquivos viventes e ambulantes de história oral. Havia griots lendários que narravam momentos da história africana até durante três dias enteiros".

Alex Haley descobreu que durante muito tempo a memória, a boca, os olhos e os ouvidos foram os únicos médios que tinham as persoas de almacenar a transmitir informaçom.

E assi foi como Haley conta que lhe digerom onde podia achar um griot que sabia muito do clam dos Kinte. Chamava-se Kebba Kanji Fofana.

Alex alugou umha lancha, um jeep, contratou os servizos de 14 persoas, incluídos 3 intérpretes e catro músicos, porque lhe dixeram que os velhos griots nunca falavam sem música de fondo. E adentrou-se na selva até chegar a Juffure, umha aldeia de 60 persoas, de casas redondas de barro e telhados de palha, quase como havia 200 anos.

E o griot começou a falar e da sua cabeça surgiu a linhagem complexa dos Kinte: quem casou com quem, como se chamavam os filhos, os seus destinos... Algo incrível. E falou e falou durante duas horas e chegado um momento dixo: "Na época em que chegarom os soldados do rei, o maior dos filhos, Kunta, afastou-se da aldeia para cortar madeira e nunca voltou a ser visto."

Alex Haley chorou com a emoçom. E decidiu escrever aquela história: Raízes.

Mas a sua investigaçom nom finaliza aqui. Em Londres descobreu que o ano em que chegaram os soldados do rei a Gámbia era 1767. E logo viajou a Virgínia,  onde leu milheiros de escrituras de compra-venda daqueles anos, até dar com umha na que um tal John Waller transferia a William Waller 240 acres de terra e um escravo chamado Toby.

Esta é a asombrosa história que nos conta Alex Haley nas últimas vinta páginas de Raízes. Se procuras informaçom na wikipédia poderás ler que há quem cuestionou a  vericidade dumha parte desta história. O próprio Haley reconheceu que se inspirou num romance titulado O Africano para escrever Raízes.

Mas, á margem da discusiom sobre a percentagem de verdade histórica do livro, o certo é que Raízes, Roots, segue a ser um drama monumental sobre um home, Kunta Kinte, e as seis geraçons que vinherom atrás del. Como sinala a contra-capa do exemplar de Ediçons Ultramar, de 1977, que eu tenho na mao: "Esta história redescobreu a um povo enteiro umha rica herdanza cultural que a escravatura lhes arrebatou, como lhes arrebatou os seus nomes e identidade".

E esta é a história de como quatro palavras, Ko, Kambi bolongo e Kintay, atravessarom douscentos anos de boca em boca, de avoas a netos, de mais a filhas, e originarom umha das narraçons mais emocionantes entre as emocionantes histórias das palavras dos povos oprimidos, a história daquel home que naceu livre com o nome Kunta e perdeu a liberdade quando lhe pugerom o nome de escravo Toby.

Fotografía de Alex Haley de Gather